24 de março de 2012

Aquarela


E não é que ele, assim como em seus sonhos, estava vivendo a sua vida de forma intensa? Tinha perdido o medo de amar e se entregar. Ao que ele chamava olhos do mundo, escancarou a porta de seu armário e saiu, batendo assim, a porta de sua casa e indo encontrar com o sujeito que na noite anterior, deu-lhe apenas um beijo de boa noite, mas um daqueles que fazia perder a respiração e desejar que lhe devolvesse o ar roubado, prometido a noite seguinte, que era aquela, início de uma aquarela pintada pelo destino daquela estação.

E lá se foi, beirando as calçadas, atravessando semáforos, encontrando com putas, cachorros e vagabundas, assim, meio de repente, dando de topo com toda aquela gente, que numa noite de sexta-feira quente, só pensava em babados, confusões e gritarias. Dentro de seus pensamentos, todas aquelas pessoas tinham um só destino, como o dele, o encontro com alguma coisa que pudesse dar o título de paixão. Estava tão irradiante, que até aos xingamentos de veado, bicha e mulherzinha, ele ria. Guardava o dedo para alguma coisa além do Gim, posterior a um balcão de bar. Sabia ele que desperdiçar qualquer coisa de forma a ser introduzida em alguém, era mero pressuposto de ignorância. Ele estava em paz, consigo, com os outros e por assim dizer, com o mundo a sua volta.

Queria as plumas que o céu oferecia uma nuvem se entrelaçando à outra. Desejava as lantejoulas, pedacinhos desconexos da noite quente, escura, mas boa. Unia seus pensamentos às forças cósmicas do universo, pois desejava a noite mais perfeita de sua vida. Claro que era a milésima vez que pensava desse jeito, mas tinha uma coisa que ele sabia bem, que o amor durava enquanto tinha que durar, o prazer era o que importava e decidido a viver, ele ia, chegando à porta do bar, levantou o pé direito e enfiou-o porta adentro. Não que fosse uma pessoa que herdara das superstições qualquer detalhe, mas não custava nada e depois do direito, um coração palpitante, no esquerdo, o ar ofegante. Ajustou o ombro e passo a passo, seguiu-se rumo ao balcão, não encontrou o seu amante noturno, sentou-se ao balcão e ao atendimento do garçom, pediu uma refrigerante, bem gelado.

Tomou, a pequenos goles todo o refrigerante e nada do sujeito chegar. Pediu uma cerveja, bem gelada e depois uma água tônica, em seguida outra cerveja. Sentiu um gosto de furo invadir sua boca. Como se subisse de dentro do estomago uma sensação de vazio. Mais um cão abandonado a soleira de um lugarejo em penumbra. Alguma coisa em sua alma o assombrou, talvez um possível esquecimento e ele entrou num estados de nervos terrível. Não acreditava que havia sido abandonado, largado no tempo, sujeitado a sarjeta de suas emoções. Suas mãos e testa suavam friamente e as pernas balançavam mais forte que trem desgovernado.

Começou, por dentro a conjugar todos os verbos possíveis a um furo. Tentou supor os motivos, pediu uma dose de Vodca, estalou os dedos e o pescoço, segurou a mão do garçom e não querendo perguntar, perguntou se o sujeito de calça apertada de couro, camiseta branca e tatuagens nos braços não havia chegado e saído. Deu mais detalhes que talvez nem o sujeito em si soubesse que tinha e a resposta do garçom foi que não tinha passado ninguém por ali aquele dia. E ele não queria acreditar na situação ridícula que estava vivendo. Nunca em sua vida, pensou. Depois tentou arrumar desculpas para as poucas vezes que não apareceram aos encontros, chegando ao final, a uma conclusão nem um pouco instigante: de que em noventa e nove de seus encontros foram de uma forma ou de outra, substituída por alguma outra coisa pela outra parte, ou seja, sempre acabava acreditando demais e nunca mais apareciam ou ligavam no dia seguinte.

Levantou do lugar que estava e foi em direção ao banheiro. Do lado de dentro, enquanto abria o zíper da calça, pegava o celular que estava enfiado no minúsculo e apertado bolso na parte traseira. E antes que pudesse fazer qualquer coisa com o celular em mãos, uma barata, dessas bem cascudas passou diante a sua face e ele, levando um susto, derrubou o telefone móvel vaso sanitário adentro. Pensou em chorar, todo aquele dia, a sua vida, os encontros e todas as miniaturas que seus sentimentos sempre eram transformados.

Tentou arrancar de vários modos o celular de dentro do vaso sanitário, sem sucesso e encarando a própria vida como uma merda, enfiou a mão naquela água meio amarelada. Nem sinal de vida, ele estava desligado, mas sempre aquela certeza que no outro dia tudo ia passar e voltaria a funcionar, mas só angustia que não dava certeza que isso aconteceria assim que acordasse.

Secou o celular, lavou e socou as mãos, saiu do banheiro e voltava para o balcão para pagar a conta, de repente, como se a sua visão tornasse embaçada, ele piscou varias vezes e bem forte, a fim de retirar o embaço de seu principio de embriagação. E antes que pudesse, meio cambaleando, rolar bar abaixo, uma mão firme segurou em seus braços, virando-se para agradecer, o sujeito de calça de couro apertada trajava uma bermuda jeans surrada, uma regata preta e calçava um tênis muito imundo. Segurou tão firme que o corpo dele, como os mais íntimos chamavam, ficou de pernas mais bambas. Parecia não acreditar e o outro, cujo nome seria apenas falácia, dirigiu-lhe os pedidos mais sinceros de desculpas e claro que foram aceitos, pela primeira vez em sua vida, Fred era surpreendido por alguém ou alguma coisa.

Ali, rolou mais algumas bebidas, depois que ele tinha meio que se recomposto, saíram como dois apaixonados saem, exceto as mãos dadas fisicamente, mas estava ligados pela alma, sexo, tesão. Subiram o apartamento de menino transgressor e ainda dentro do elevador, beijaram-se loucamente, calorosamente. Pareciam arrastar os corpos por entre o corredor e entrando no apartamento, logo, com o furor daquela paixão, retiraram as roupas. No que dava para entender nas palavras dele, entre gemidos e sussurros, pode-se dizer que a noite foi boa, ou melhor, aquele verão foi bom. Se não é que é até hoje, pois passaram todas as estações do ano e ambos ainda estão a colorir uma linda aquela de corpos.

2 comentários:

Célia Rangel disse...

Amar sem medo ou preconceitos é GRANDE sinal de MATURIDADE!
Abraço, Célia.

Gustavo Rafael C.L. disse...

Muito bom o texto cara.
Já estou seguindo seu blog.

Comenta e Segue meu blog também. Código Literário.
http://codeliterario.blogspot.com.br/

Abraço.