27 de novembro de 2011

Ele não se lembra


Alguma coisa nele o despertava sempre do seu estado de letargia constante. Claro que tudo era falácia, mas ele sempre me destruía, com aquele ar de pessoa mais fodida do mundo. Tudo bem que ele tinha passado os últimos dias nos braços de uma repleta desconhecida de minha percepção, tudo bem que ele andou tendo seus devaneios bem longe de mim e tudo bem que eu estava morrendo de raiva, ciúmes, ódio, mas ainda assim, tinha dentro de mim um amor sereno, capaz de esperar por mais anos de sua volta. Claro que eu tocava seu corpo em pensamentos, era obvio que eu já não sabia tê-lo tão longe. Doeu-me os dias que colocou de lado e foi ter com outros humanos, aquilo que havia me prometido. Eu já tinha esperado por muito tempo, mas ainda assim, era capaz de esperar mais um pouco, só mais um pouco.

Se no inverno ele me fez promessas, na primavera logo ali, ele se esqueceu. Foi e não disse adeus e aquilo me partiu o coração e arrebentou com meu espírito. Vaguei pelas noites, procurando-o pelos becos e nem entre a antiga roda de vícios ele se escondia. Descobri que tinha partido com uma estranha e desde então, desejei, fiz mandinga, apelei às forças ocultas, pedi de volta o que era meu. Tudo ilusão, ninguém me atendeu e eu tive que me contentar com algumas coisas que apareciam por ai. Alguma coisa, no entanto, dava a entender que ele ia voltar. Não sei. Os pensamentos tornaram-se positivos e eu ia abrindo mais as portas da esperança. No final de todo dia, eu meio que decepcionado, ia e fechava as portas, pensava em nunca mais abrir, mas na manhã seguinte, eu estava lá, abrindo novamente, escancarando. Vez em quando passava um estranho e pedia entrada e eu não permitia. Dentro de meus recôncavos só cabia mais uma pessoa, já tinha dono e parecia que ele tinha se esquecido dele.

Nas minhas inconstâncias, o coração às vezes voltava a ter o ritmo normal, mas era pensar nele que amargurava, perdia o compasso e eu logo ia perder as estribeiras tomando cicuta. Eu estava vivendo as coisas de maneira errada. E esperar que voltasse, era fantasia. Talvez a outra pessoa fosse melhor do que eu. Talvez a outra tivesse mais jeito para cuidar de um adulto que não tinha aprendido a crescer. Talvez eu não fosse assim tão louco, como ele sonhou um dia que eu era. Sei que os “talvezes” da vida vinham para dentro de minha cabeça e eu ia enchendo a cara de Uísque, Vodca, Gim... Bebia mesmo, sempre esperando apagar e não lembrar mais daquele canalha. Droguei-me, tive dezenas de overdoses e nada dele aparecer, nem ligar, nem sequer mandar um recado por aqueles vagabundos que o cercavam.

Sei que numa manhã quente de uma primavera floriu, bem em seu estado final. Apareceu-me um sujeito, todo detonado. Cara de roqueiro perdido, sem rumo. Perdido. Claro que abri a porta. Obvio que o mandei sentar. Claro que mesmo fervendo de raiva e querendo partir para cima, eu fiquei na minha, esperando-o que abrisse a boca, pedisse desculpa, ou falasse qualquer coisa. Claro que ele não fez isso, mas também era obvio que ele sabia que era eu, somente eu, que mesmo não tenho o dom de cuidar de criança, era o único capaz de fazê-lo ninar. O depois, a gente resolveu na cama. Havia nele, um fogo e em mim, uma brasa. Só ele conseguia me incendiar e só eu conseguia manter o fogo dele acesso!

6 comentários:

Uvirgilio disse...

Essa música é linda, o texto tmb ficou muito lindo. Ah e adorei a imagem final, rsrs

Lua (: disse...

Nossa, parabéns! Texto muito, muito lindo. Uma verdadeira arte. Adorei! E fiquei sem mais palavras... rs

Tainá Abreu disse...

Belo texto.
Parabéns pelo blog.

bjs

Hysteria Project disse...

Adele manda muito!

Um ótimo texto, bom que teve final feliz =D

Samira Machado disse...

Eu amo essa música!

http://thebookofmydreams.blogspot.com/

Marcos disse...

Só os sãos e cheios de humanidade é que bebem o amor em doses violentas de gym, cerveja, vodka e etc... E só os eternos românticos, cheios daquilo que o mundo tão necessita é que são capazes de esperar por tempos entre comas anônimos um amor de primavera que sempre retornará!

Parabéns, lindo blog.. lindos textos...