30 de junho de 2012

Flor da Pele

Dor doutor, é uma dor

Dor é essa coisa consentida, permissão, valor ou desvalorização, não sei, só sei que a dor que dói é essa coisa doída e doida, a gente permite, nós abrimos as portas, ou simplesmente deixamos uma fresta? Não sei: se não é dor, não dói e a gente não sente, aprende ou desaprende. Sentimento, consentimento, abertura de todos os poros, acnes, cravos, sapinho no canto superior da boca, é resfriado, gripe dividida, compartilhada, eis aí a dor de se abrir a paixão. Do amor? A dor de sangrar internamente um líquido, meio púrpuro, meio avermelhado, com lantejoulas, purpurinas e paetês, essa é a dor do amor, mascarado, enganado, deitado e rolado em cama macia de lençol felpudo, quente, contra corpos, um a um, às vezes dois mais um. Eis a dor, de um e do silêncio, do amor, da paixão. Há também outros tipos de amores, outros formatos de portas, outras tantas coisas que até é difícil discernir bem e mal, caos e marasmo, moradia e céus abertos.

Outro dia eu lá, sentado num banco de pedra, pintada de cal branco que sujou toda minha calça preta, apenas sentado, fumando, fumando, soltando fumaça pela boca, terminando um, dois, três, sei lá quantos cigarros, fiquei pensando como até mesmo pensar dói, desconcerta, mexe no que está quieto, faz bagunça interna, externa, uma lágrima quase rola, um suspiro no ar, um remelexo com a cabeça, tudo passa. Pensei em como está vida é vivida de forma certa, errada, mais ou menos, não sei, sei lá, a gente nunca vai saber ou se souber não vai acreditar, mas enfim. Eu estava lá, quietinho, sentadinho, pensando baixo, resmungando de vez em quando, confesso que às vezes, muitas vezes falo sozinho, é mais fácil ouvir do que sentir, é mais fácil sentir do que não sentir, algumas coisas, claro, tem coisa que de fato é provação flagelo via sacra calvário cruz morte, sem muita ressurreição. Pode isso? Tem coisas que morrem dentro da gente e nunca mais renasce. Mas era de dor, não de morte, certo? Mas morrer é uma dor costumeira, a gente se esbarra nela, chora, acha que não vai sobreviver, afinal, o morto morreu e a gente ficou. Sem espaços para as reticências, apenas um ponto e bem final, uma dor, um ponto, uma dor e ponto. Desculpa! Acha que estou sendo complexo demais? Como? Não? De menos? Ok! A dor é essa coisa que eu tenho experimentando, de vez em quando finjo estar tudo bem, mas não está, daí penso estar me suicidando às avessas. Ah! Lembrei-me de uma frase? Posso dizer qual? É daquele livro que a gente cisma que é o nosso preferido, até eu cismei que era o meu, por um bom tempo, talvez até seja, mas enfim, era assim, ou mais ou menos isso: a gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar. Oi? Sim, esse mesmo. Qual o nome mesmo? Desculpe, não prestei tanta atenção. Ah! Verdade, O Pequeno Príncipe. Mas tu saberia me dizer por que todo mundo diz que esse seria o livro da vida delas? Porque eu já disse que era o meu? Era o seu também? Deve ter sido da secretaria ali fora, mas enfim, é para sempre, um sempre que se acaba quando tem que se passar por terapias. Desculpa-me, nada pessoal, mas é verdade. Um dia é Exupéry, mais a frente à letra de música de uma banda, mais tarde Augusto Cury, até enfim conhecer Freud, a psicanálise, as receitas mágicas de emagrecimento, essas coisas, sabe né? Voltando um pouco, sobre a frase. Sim, quero falar um pouco sobre ela.

A gente, eu, você e todo o resto do mundo são assim mesmo, corremos, mas nem sempre chegamos, encontramos, apenas vamos e nos tornamos repletos fracassados e eu não vejo problema em se admitir um, dois, milhares de fracassos, aliás, está aí outra porta entre aberta da dor, mas essa tem marcada sobre ela, numa madeira escrita à tinta verde, um fracasso em letras maiúsculas. Não sei por que o verde, eu gosto de verde. Oi? Sobre o que estávamos falando mesmo? Dor não era? Oi? O Pequeno Príncipe? Ah, ele não vai crescer nunca? Brincadeira. Ele riu, eu franzi a testa, pois não queria mais risos. Não tinha gostado daquele monte de dente se mostrando para mim e ainda amarelado. Calou-se e eu também calei. Lembrei, era sobre fracasso. Então, o fracasso é dor comumente do choro de tudo aquilo que não conseguimos e não somos obrigados a conseguirmos sempre e nem sempre estar em ordem, gosto do caos, de me deixar cativar um pouco depois de correr. Oi? Ah! Esqueçamos a frase. Esqueçamos um pouco de tudo. Pode ligar o rádio? Você por um acaso tem um Reggae ou um Rock desses antigos? Não? Oi? Não, som de natureza não, por favor. Ele quase riu, mas viu minha cara, meio de desprezo, meio querendo ir para casa, meio assim, mais ou menos. Vinte e cinco, merda, ainda tinham vinte e cinco minutos e o que falar? Quis ir embora, mas ainda não tinha terminado. Alguma coisa ainda tinha que ser dita. Ele tossiu, eu me lembrei de voltar a falar da dor.

O que me fala sobre a dor... Falou, falou e falou, mas não prestei atenção, não estava muito bem aquele dia. Bem, eu não me sentia bem em nenhuma segunda, terça, quarta, quinta-feira. Nem nas sextas, sábados e domingos. Ainda assim eu permanecia de pé. Dor, sua filha da puta, ou seria no masculino. Aliás, doutor, que sexo a dor tem? Tem cor? Cheiro? Qual o tamanho da dor? Verdade, o tamanho é esse mesmo, aquele que alimentamos. Acho que a minha é alimentada de quatro a cinco vezes por dia e no final, ainda dou uma dose bem servida de vodca para que ela fique um pouco embriagada e me deixe ao menos dormir. Oi? Não doutor. São metáforas, ou não, aliás, tenho bebido todas as noites, também bebo a cada quarenta e cinco minutos, quando vou ao banheiro, mas de dia, só um pouco, quase nada, só para amansar a feroz dor que não sei, parece que incorpora em mim. Seria um encosto? Quanto tempo falta? Ah! Semana que vem eu não venho. Porque vou viajar nesse final de semana e volto daqui duas semanas, daí eu apareço por aqui, mas não se preocupe, vou deixar a dor por aqui mesmo, trancar ela no banheiro e sair correndo, para onde vou, ela não vai me encontrar, nem vai saber, nem meu pai, nem minha mãe. Oi? Não vou contar para o senhor também, vai que manda a dor atrás de mim só para que eu tenha que aparecer aqui. Oi? Não, O Pequeno Príncipe não doutor, agora sou mais Emily, a Brontë, duas semanas sem dor e depois só se for de amor, dor de amor doutor. Aliás, as putas ou as bichas doutor? Oi? Ele interrogou! Brincadeira. Eu não ri, de novo, só são as dores de amor, de amor doutor.

Um comentário:

Célia Rangel disse...

Dor de alma. Dor de coração. Dor repugnante. Dor de preconceito. Dor da solidão. Dor do descaso.
Dor & Dores & Dolores! Não há termômetro que afira a temperatura da mesma e muito menos estetoscópio que averigue os batimentos... Doem e tá acabado. Finito. Excelente sua reflexão!
[] Célia.