16 de junho de 2012

Flor da Pele

Um filme, uma história

I


Miguel, diretor de cinema, nordestino com sotaque gaucho. Louro, forte e de olhos verdes. Seu crime? Viver todo roteiro de cinema que passou a escrever, depois que viu sua vida literária se fundir com o calabouço das criticas fugazes de um renomado escritor e comentarista de livros, peças teatrais e afins. Pensou, quando as palavras daquele jornalista impiedoso e mal comido acercaram sua psique, em tirar a própria vida, mas recebeu de um estudante e leitor de seus fracassados livros, o apoio para fazer alguma coisa diferente, pois via em suas obras, um pouco de monotonia, mas que seriam capazes de ganhar outra tonalidade se fosse expostas em pessoas, cenas e imagens, chamando-se assim, cinema.

Pegou sua primeira obra, meio arcaica e cheia de preconceitos. Aquele tipo de livro que os pré-escritores fazem, mais defendendo o seu ponto de vista que literatura em geral. Leu, releu e percebeu que de fato, aquilo era uma merda. Sua merda cagada a punhos de moralidades e conceitos religiosos velados.

Percebera em seus personagens, renomados arquétipos clericais. Tornou-se a consciência que aquilo nunca de fato chegaria a lugar algum, a não ser a monografias de estudantes literários, cujo título poderia ser sua derrocada, sua visão primata ou qualquer outra temática nada convencional a nova era de escritores. Faltava contemporaneidade, assim como sobrava medievalismos. Pegou um cigarro, acendeu-o do lado errado, não percebeu e na ultima difícil tragada, queimou a boca, reagindo de espanto a sua total babaquice, ao menos, aquilo deu lenha a nova fogueira de sua inquisição, tornou público sua doença: a arte como ela era, nua e crua.

II

Rasgou o livro em partes, separando os capítulos. Fez do epílogo, a fala do narrador e dos meandros da obra, sustentáculo de uma futura obra ficcional perfeita. Mesmo tortos e desconexos, a inspiração parecia ter baixado naquele homem, que dentro de seu quarto, trajando uma cueca branca, apenas isso e mais nada, uma tensão entre o personagem principal, o secundarista e o vilão, que na visão dele, naquele momento, tinha que ser representado por aquele escolhido o galã do ano, naquela época.

Sua voz se unia em quase todo momento que desconcertava aquele livro. Sentiu um prazer latente, como se o personagem de fato fosse ele próprio. A única coisa que o distanciava de ser ele o mocinho de sua trama, era que coragem o irreal havia demais e ele, o autor, de menos. Mas não tinha problemas, sentia ele que aquilo estava ficando bom, tinha certeza que encontrara um lugar, onde todas as peripécias de sua cansada alma pudessem despejar, em suas lacunas, um monte de paetês e lantejoulas.

Rasgar o livro, tornando-o peso sobre a sua nova escolha, foi como se abrisse o leque de novas oportunidades. Sair daquele armário de resignações e preconceitos foi o acerto final a sua nova empreitada, trazendo a tona, toda, mas toda forma de compreensão além dos muros de sua própria consciência.

Deu vida a seus personagens mortos, criou novas expectativas, outras realidades foram acrescentadas, típica história de um desertor, que faz a platéia aplaudir no final e de pé. A cada nova página, sentia na pele as vivencias de cada um de seu drama, um pouco com cara de comédia, mas terminando em um drama resolvido, mesmo que naquele tempo ainda fosse de mentirinha.

III

Todos os sustentáculos, ou melhor, tripé da produção cinematográfica daquele primeiro roteiro e filme de Miguel, estava longe de ser vista como as mais altas produções, até mesmo do país, mas tinha decência, pois fora entregue com todo o prazer de sua alma. Do livro rasgado, passando pelo roteiro escrito, reescrito, editado, revisado e aprovado por uma pequena produtora, todos que estavam de certa forma empenhados nessa nova empreitada, abdicaram de quase toda a vida pessoal, do começo ao fim.

Chegou os dias de testes para preencherem os devidos papéis. Algumas pessoas importantes na roda de cinemas de todo o país, ao saber que o projeto era inovador e que tinha tudo para dar certo, indicaram nomes e mais nomes, porém Miguel sentia que aquilo não era justo. Gente de ontem que o julgou severamente, agora batia a sua porta para isso e aquilo. Talvez se sujeitando as pessoas influentes, pudesse conseguir mais rapidamente ter seu nome citado, porém, uma euforia e um prazer o fazia pender para o lado mais humano, decidiu não aceitar nada que o mundo de fora quisesse oferecer. Não nesse âmbito, onde agora corriam atrás, simplesmente para poderem aparecer.

No primeiro e no segundo dia, apareceu um punhado, pouco, insuficiente. Foram feito os testes, mas não convencido, Miguel disse não, não e não. Passou uma semana, aumentou um pouco e ele ficou com uns três, porém ainda, os papeis não tinham sido escolhido, pois ele sabia que para os personagens, aqueles que viveriam toda a trama escrita, precisaria de gente, como se quisesse dizer, audaciosa.

Decidiu, portanto, ir atrás, de alguém diferente e que estive disposto, a ser no cinema, aquilo que ele queria ser em vida. Cada personagem criado era seu alterego. E por conta disso, ele não se dava por satisfeito. Até que, convidado para assistir a uma peça de teatro, em sua antiga universidade, encontrou, entre os amadores, um sujeito, parecido com o que ele chamava de personagem. O menino devia ter uns vinte e quatro anos, era louro e olhos verdes. Ao final da apresentação, Miguel desceu até o camarim, ainda eram os mesmos corredores, chegando lá, viu alguns atores se trocando, mas quem ele procurava, não encontrava. Chegou e perguntou a respeito do menino louco, que estava vestido de branco e todas as características físicas possíveis, ao passo que a receptora disse que ele tinha ido ao banheiro. Esperou por cerca de quinze minutos, até que o garoto chegou ao camarim, meio sorriso no rosto, mas com uma expressão meio séria demais.

Miguel ficou observando, apenas admirando a forma com que ele cumprimentava as pessoas, ficou atento quando ele tirava a maquiagem e até mesmo nas caretas que fazia diante do espelho. Era convicto de que ele seria a pessoa ideal, mas como chegar nele? Ficou Miguel, entre ir e ficar, esperando e articulando a melhor abordagem.

O menino por sua vez, observou pelo espelho que o sujeito louro e de olhos também verdes, o encarava demais, fazendo-o que levantasse e fosse em direção ao homem. Frente a frente, cumprimentaram-se e Miguel fez uma rápida apresentação, enquanto isso, o menino retirava a roupa usada na apresentação. Encerrada a apresentação de um, o garoto fez a sua. Comentou que era estudante de Artes Cênicas e que não abandonaria o teatro para fazer TV, isso porque Miguel não tinha dito ainda o motivo de sua presença ali. Meio desconcertado, o novo cineasta tentava puxar assunto e o garoto que havia se apresentado como Caio, ia terminando de tirar as roupas.

Não sobrou ninguém no camarim. Caio era, como podia se dizer, o responsável por abrir e fechar as portas do camarim e do teatro em geral. Era o diretor das peças e falou que sua paixão era estar no palco. Que não via graça em televisão, que era tudo muito monótono e falso. Miguel tentava defender o seu lado. Queria aquele menino como o mocinho de sua estréia. O tempo voou e não fora feito o convite. Miguel sentiu-se fracassado, a ponto de chegar a casa e tomar boas doses de Uísque. Conseguiu de Caio, o numero de seu celular. Como ficou inquieto, resolveu ligar para o menino. Falaram-se brevemente. Coisas do tipo “tudo bem”, “ainda estou pensando no que disse”, “poderíamos marcar um encontro”, poucas palavras, frases solta de dois desconexos mundos.

IV

Tinha se passado duas semanas do primeiro encontro de Miguel e Caio no teatro da universidade e ambos resolveram se encontrar numa praça, no largo da cidade. Miguel vestiu um jeans escuro e uma camiseta verde, Caio trajava bermuda jeans, regata e chinelo. Cumprimentaram-se e falaram dos acontecimentos dos últimos dias.

O roteirista então disse o motivo de estar atrás dele desde aquele dia. Comentou do projeto e falou que viu em Caio a melhor pessoa para viver o personagem principal do seu primeiro filme. Contou em alguns minutos, toda a história e deu também as orientações. Como tudo seria filmado, como lugares, roupas, dias. Caio que até então não havia dado nenhuma intenção em aceitar, ao ouvir tudo sem questionar, respondeu com um sim. Não iria aceitar o papel sem antes passar por algum teste, pois achava injusto, já que sabia da dificuldade que se tem em ser ator.

Caio perguntou se Miguel fumava e esse disse que sim. Pediu um cigarro, respirou fundo e contou um pouco da sua vida. Abriu o jogo, o coração, a alma. Miguel ficava encantado com cada palavra. Viu mesmo no garoto a possibilidade de ser aquele personagem sonhador que corria atrás do que queria, porém sem dizer que independente do teste, o papel era seu.

Levantaram e deram umas duas voltas em torno do largo, Caio não parava de falar e Miguel não cansava de ouvir. Sentia alguma coisa especial em torno daquele menino. Via alguma familiaridade. Talvez fosse a aparência física, ou mais que isso, tudo aquilo que era falado, sentido. De certa forma Caio era Miguel, porem mais novo e com mais coragem de encarar a vida de frente, coisa que só fazia através de sua literatura. Caio não, resolvia sempre correr atrás dos objetivos e não se demonstrava frustrado pelas vezes que não conseguia algo.

Combinaram ainda naquela semana um teste. Caio levantou-se do banco que sentaram, despediu-se de Miguel com um abraço e se foi. O outro ficou sentado, vendo ir o garoto. Sentira-se bem ao seu lado. Passou o resto do dia pensando em Caio. Carregou durante a semana tudo que tinha ouvido falar. Não sabia fazer outra coisa senão sonhar acordado com Caio. Teve aqueles que acharam estranho essa fixação, outros entenderam que por ser um roteiro quase biográfico, Miguel tinha se deparado com alguém muito parecido com ele. Suposições a parte, Miguel havia se apaixonado, não sabia, mas sentia.

V

Sexta-feira, o relógio marcava oito e vinte da noite e Caio estava atrasado para fazer o teste a mais de uma hora. O pessoal responsável de aplicar o teste junto com Miguel levantou e forma embora. Pediu que ligasse para o menino e marcasse outro dia, visto que sabiam que Miguel não o dispensaria. Enquanto saiam, Miguel sentou-se e meio desolado, sabia que tinha sido um furo e que Caio não poderia fazer parte do elenco. Onde estava o compromisso? Onde estava a responsabilidade? Tentou colocar na cabeça que o melhor era ligar e ser profissional, dizendo que não poderia mais tê-lo no elenco de sua filmagem. Não queria, mas era necessário, senão poderia sofrer algum tipo de represália mais tarde, se deixasse que o lado pessoal, de ter gostado do menino, interferisse no projeto profissional.

Pegou o celular e ligou para Caio. Demorou um pouco, mas o outro atendeu. Estava meio alterado. Bêbado para ser mais exato. Naquele instante Miguel se desmoronou. Parecia que o outro não estava nem ai para o combinado, mas não conseguia dispensar. Criou dentro de sua cabeça que talvez ele tivesse apenas esquecido, bem, foi o que aconteceu, mas acontece que ele tinha que por fim aquilo, mas não conseguia. Quando resolveu pronunciar sua decisão, Caio chamou-o para ir até onde ele estava. Miguel cedeu e foi.

Chegou a um bar povoado de adolescentes, jovens e adultos que não aprenderam a crescer. Pelo que viu, tratava-se de um desses bares moderninhos. Procurou por Caio e encontrou-o próximo a porta do banheiro. Colocou as mãos em seu ombro e virando-se, abraçaram-se. Miguel apaixonado viu o menino que esqueceu que era adulto muito bêbado. Porém, tinha tomado sua decisão e não seria ali, nem naquela hora que ele falaria. Resolveu esperar até a outra semana. Ligaria e comentaria o ocorrido. Tinha decidido ficar com um dos atores já escolhido.

Convencido a tomar alguns drinks, Miguel assim o fez. Bebeu algumas cervejas, doses minúsculas de Uísque. Mas Caio estava agitado, dançou e a todo o momento perguntava se Miguel estava bem. Quando chegou não estava, mas naquele instante estava mais relaxado. Já que estava por ali, resolveu ir além. Tomou vodca, virou algumas tequilas, ficou alto, alegre, bêbado e fácil. Ao perceber do estado de Miguel, Caio se aproximou mais. Ao que parecia apenas uma noite qualquer em um lugar qualquer da cidade, o menino não quis assumir tão prontamente o que sentira quando viu Miguel pela primeira vez. Então inventou de beber e carregar com ele aquele cara louro que provocou seus instintos humanos. Caio também estava apaixonado por Miguel.

VI

Na vida, Miguel nunca teve tempo para sair, beber e se divertir de verdade. Sempre preocupado com os amigos, com a família e com o que falariam dele, não tinha vivido sua vida intensamente. Quando bebia, era pouco para não ficar bêbado. Quando amava, era para cumprir preceitos, seguir regras impostas pelo moralismo herdado de um pai militar. Tinha medo de se entregar a um amor sincero, a um prazer sincero, a uma pessoa sincera. Mas tudo mudou. Um dia, ou melhor, numa noite daquelas que tudo parecia estar consumado, a vida de outro alguém veio bater a sua porta e propor que junto com a dela viesse juntos a alguma lugar, dar forma as coisas desconstruídas.

Caio chegou por acaso em sua vida, mas não por acaso fez o que fez. Sentia alguma coisa por Miguel. Nunca foi do tipo de cara que dava em cima de alguém, sempre esperou que quem tivesse interessado por ele viesse, chegasse junto. Com isso, não aprendeu a correr atrás de um grande amor. Ia atrás dos sonhos, objetivos, mas nunca precisou chegar, perguntar por nomes e angariar um beijo. Miguel também fez isso mudar. Mesmo sem saber ao certo como agir, Caio encontrou dessa forma um jeito para realizar um desejo. Não queria perder tempo e menos ainda deixar escapar a oportunidade.

Nunca esteve interessado no papel que Miguel havia lhe oferecido. Aceitou fazer o teste para não cumprir. Suas pretensões era mesmo o teatro. Pelo menos naquele instante de sua vida, era a coisa mais importante de sua vida. Miguel foi incluso nos detalhes e bêbados, Caio sentiu-se preparado para dizer o que sentia. Pediu desculpas por não ter aparecido no teste e ainda bêbado conseguiu expressar bem os seus sentimentos.

Os dois saíram um apoiando no outro. Pegaram um taxi e foram para a casa de Miguel. Antes de entrarem porta adentro, deram um beijo, demorado, quente. Abriu a porta, entraram. Acenderam a luz, bateram a porta, apagaram a luz, mas um abajur acesso mostrava através da sombra, que aquela noite foi longa, intensa e boa entre os dois novos amantes daquele lugar.

Um comentário:

Célia Rangel disse...

O amor verdadeiro é o apoio eterno em nossas vidas! Feliz quem o vive.
Abraço, Célia.