21 de julho de 2012

Flor da Pele

A monja da saia rodada

Quase sempre depois que o relógio marcava onze e tanto da noite eram que os passos ecoavam no assoalho velho do Convento das Virgens. Mas nem sempre foi assim. Antes, antes tudo era silencio depois das nove, quando todas as irmãs saíam da capela e rumavam aos seus quartos de clausura. Irmã Agnes mesmo sempre pedia que ficássemos vigilantes em orações pelas almas perdidas.

Talvez, as almas pelas quais estávamos sempre atentas nas rezas, estivessem querendo se comunicar, mas éramos proibidas de tocar no assunto umas com as outras. Conversar com os espectros que passeavam pelos corredores menos ainda. Isso tratava apenas das incumbências do padre que uma vez por semana vinha exorcizar a nossa velha casa.

Eram sempre aos sábados que os espíritos perdidos na terra vinham se arrastar pelos nossos corredores e nessas horas tínhamos que trancar nossas portas, ajoelhar e pedir luz para que elas fossem encontrar a paz eterna. E quando chegávamos ao ápice de nossas orações, penso que a alma ia mesmo para mais longe, pois escutávamos a porta central de nosso convento se arranhar ao abrir e gemer ao fechar.

Tínhamos lá nossos medos. Não era sempre que tivemos fantasmas tão perto da gente. O que restava-nos, eram apenas as rezas para que um dia as almas fossem encontrar o céu ou que mudasse de Convento.

Por volta da hora em que os fantasmas começavam a perambular pelo nosso Convento, trancávamos em nossas clausuras e de lá não saíamos até as badaladas do relógio, sempre às cinco horas da manhã, hora em que despertávamos e corríamos com a cara ainda cheia de remelas até a capela para as primeiras orações do dia. Depois sempre tínhamos um tempo para recompormos nossa aparência.

Aos domingos, porém, irmã Agnes se ausentava das orações iniciais, deixando o encargo para qualquer irmã mais velha no Convento designada algumas horas antes de dormir na noite anterior. Imaginávamos que ela devia passar a noite toda acordada orando pelos fantasmas que vinham assombrar a nossa casa.

Chegávamos a frente ao altar e lá iniciávamos os ritos e com os olhos espantados, todas revelavam a sua curiosidade pelo fato decorrido na noite. Mas como não tínhamos permissão de pronunciar, tentávamos tirar aquele ar de suspense na face.

Saímos depois dos minutos de reza em direção aos banheiros instalados na parte de cima de nossos quartos e de cabeça baixa, via todas as irmãs seguindo. Claro, estávamos procurando de maneira que não transparecesse nossa curiosidade, algum rastro que pudessem ter deixado os fantasmas. Mas nunca víamos nada além de alguns pequenos riscos, deviam ser coisa de nossas imaginações, mas que era estranho era, pois estávamos acostumadas a andar de chinelo dia e noite.

Acostumadas com os acontecimentos, chegou o dia da entrada de algumas meninas novas em nosso Convento. Elas tinham passado por um momento de preparação tão grande que a Irmã Agnes decidiu que era hora delas ingressarem.

As irmãs mais novas de nossa casa foram às designadas a cuidar das boas-vindas as meninas que estavam chegando. Foram passadas as regras da casa e elas por sua vez, aceitaram e passaram o resto do dia na capela orando. Era normal elas irem orar entre elas, a fim de organizar o espírito de benevolência ao qual elas estavam se propondo.

Como cada uma de nós tem nossos quartos, algumas das irmãs mais velhas tiveram que sair dos seus quartos para oferecer as noviças, já que eram as novidades e assim, pudessem estar mais perto de quem já estava a mais tempo na casa. Fomos aos poucos nos intercalando entre um quarto para uma novata e uma que já estava a mais tempo, assim, organizando para que se elas precisassem de algo, elas tivesse alguém próxima a quem recorrer.

As noviças foram agraciadas com menos oração no primeiro sábado em nosso Convento. Puderam se retirar um Rosário a menos que nós que já éramos consideradas velhas. Tiveram esse tempo, antes de dormi livre para ficarem entre si e conversar do que quisessem desde que não fossem coisas impróprias para a santificação de suas vocações.

Assim que terminamos as nossas preces, Irmã Agnes designou que passássemos pela biblioteca de nossa casa e pedisse que as meninas assim como nós, nos recolhêssemos em nossos quartos. Assim feito, todas nós subíamos as escadas e pensávamos se falaríamos sobre as almas que vinham nos visitar aos sábados a noite ou deixássemos que elas soubessem por si próprias. Não tínhamos recebido a permissão propriamente dita para informar nada e como tínhamos sido proibidas de comentar o caso, decidimos nos calar. Talvez os fantasmas não viessem àquela noite e Irmã Agnes mesmo falaria a elas o que acontecia ali e daria as orientações.

Cada uma em seu leito, orientamos apenas as meninas que se sentissem necessidade de orar, para que ajoelhasse cada uma em seu quarto e assim fizesse. De uma coisa não éramos proibidas, manter o silêncio e as preces em nossa boca.

Tinha passado alguns minutos desde que tínhamos entrado em nosso quarto e um barulho de madeira começou a bater no assoalho, sabíamos que eram as almas e desse modo, acredito que todas devem ter se colocado em oração, a não ser as noviças que poderiam estar assustadas, e desse modo, a única coisa que podíamos era interceder por elas a fim de não saírem dos quartos e se deparasse com alguma alma penada em nossos corredores.

O que sei, é que no outro dia ninguém tocou no assunto e nem as meninas perguntou nada a respeito do barulho. Mas os olhos brilhavam diferentemente da novidade de não estarem mais em suas casas. Alguma coisa no ar tinha um cheiro de questionamento.

– Irmã Dulce, onde está a Irmã Agnes? – Perguntou a noviça Bernadete.

– Deve estar com certeza em sua clausura. Dificilmente, bem, nos últimos meses ela não desce para as primeiras orações.

– Mas por quê? Exaustão?

– Pode ser que sim. Penso que ela passa a noite em oração. Tanto você como as outras noviças devem ter ouvido algum som diferente do habitual ontem depois que nos recolhemos, não ouviu?

– Sim, mas...

– Não temos permissão de falar sobre o assunto, mas saiba que quando voltar a ouvir o som, você e as outras meninas devem fazer como nós que aqui estamos há mais tempo. Colocar em oração e pedir que o se afaste de nós àqueles que nos perturbam a noite.

– Orar? Mais? Se...

– Ore irmãzinhas. Apenas façam isso.

– Ontem ouvi barulhos de passos próximos ao nosso quarto e abri a porta.

Dizendo isso, todas as irmãs voltaram-se para a noviça Dulce. Claro que estavam espantadas, mas também bastante curiosas de saber o que foi que ela viu. E antes que ela notasse que talvez tenha feito uma coisa errada, falou alto e em bom tom.

– Ouvi o barulho e abri a porta e vi Irmã Agnes trajando uma saia toda rodada. Notei que ela desceu a escadaria e saiu pela porta. Que raio de vestes rodada é essa? Um tipo novo de habito?

O fantasma era irmã Agnes que por algum motivo pelo qual não nos propusemos, a saber, saia todos os sábados com uma roupa que não nos era nem de perto conveniente a uma religiosa. Calamo-nos, pois vai saber se é parte de seu trabalho para afastar os maus espíritos de nossa casa.

Um comentário:

Célia Rangel disse...

Realmente, melhor não comentar...
[ ] Célia.