28 de julho de 2012

Flor da Pele

Uma viuvinha

Foi-se o morto, enterrado num dia cinza de vento e chuva no fim da tarde. Diziam que era o choro das almas de alegria, por ter pelas bandas do céu, um bom homem. Outros tantos diziam que era o choro estarrecedor da jovem, agora viúva de seu companheiro. Mas era apenas chuva, água fria de um fim de dia!

Na missa de sétimo dia estavam todos lá, as filhas gêmeas de sete anos, a mãe e o pai do morto. Também estava os parentes do falecidos e muitas lágrimas, ainda de uma saudade que doía de se ver. Estavam os vizinhos, o bairro e os operários amigos do homem morto, destino cruel para tantos e para outros, fase cumprida de um sujeito bom. Chegava mais gente e com esse mundaréu dentro de uma singela capela, chegava também à viúva, dentro de um traje preto. Era o luto. Era o choro manchando a maquiagem. Era o invés de uma vida que acabara de perder o sentido.

Iniciou a solenidade e até o padre se comoveu e até os seminaristas se comoveram. Os santos pareciam também terem se comovidos. Muita comoção a partida do homem, fúnebre e morto. Em nome do pai, do filho e do Espírito... O padre derramou uma lágrima ao olhar a mãe e pai do morto e ao olhar os filhos do morto e ao encarar a viúva dentro de um véu negro. Não teve o Santo final apenas um soluço e respiração forte para conter a todos, que derramavam um leite transparente e salgado.

No ato do perdão, ouve quem chorasse ao lembrar-se de uma vida certa, bonita e serena do falecido. No perdão, a família se abraçou, no perdão, todos sentiram que a vida era um fim próximo. E no perdão, Deus parecia ter baixado e perdoado os atos falhos de seus filhos, que em lágrimas, lavavam suas almas, mas lágrimas de morto bom! Perdão de morto de bem! Ouve penitência. Ato de chorar por um defunto já enterrado.

Prosseguia a cerimônia e entrou na capela um bêbado esquecido pelo mundo, mas sempre lembrado pelo falecido. Um bêbado chorando o atraso. Lamentando a não ida à despedida do camarada. Debulhando em copiosas lágrimas, a singela insatisfação de ter passado o dia do enterro, bebendo sua cachaça vagabunda. Comoveu os fiéis, o pai e a mãe do morto. Fez brotar lágrimas do padre, dos seminaristas e das freiras que se encontravam próximo ao altar. Fez chorar e chorou a viúva do morto!

Não teve louvor. Não teve mãos para o alto. Não teve palmas. A missa era para alguém morto. Não havia jubilo na terra, acreditavam que apenas no céu. Para os vivos, não tinha alegria suficiente e não era dia disso. O fúnebre merecia missa quieta, calma, mansa e sem agitação.

Oremos ao morto, falecido e enterrado. Sepultado nas catacumbas do cemitério intermunicipal. Oremos as suas benfeitorias e as suas boas ações. Bom homem, diziam as línguas mais afiadas. Ótimo marido sussurrava os mais afiados. Excelente filho exortava as velhas, as virgens, às moças sem marido. Exemplo de pai comentava os pais de filhos esquecidos. Bom cidadão estava a falar o dono do mercadinho que vendia fiado, os pedintes de esmola. Ai! Deixou a mãe sair. Suspiro fundo, veio da esposa do marido enterrado. E as filhas, entre lágrimas e um saco de pipocas, lembrava as lambidas no dedo, do pai que com elas, jogava a pipoca pra cima e apanhava com a boca. Um santo gritou o bêbado, quis aplaudir o pai e soprou um vento forte que apagou a vela do altar.

A missa que era de Cristo passou a ser do enterrado. Ganhou destaque e seu nome fora pronunciado diversas vezes de modo que balançava os corações e vibravam as emoções. Na primeira leitura das letras santas, coube espaço a um morto que compararam aquele pelo qual celebravam. No salmo, ecoaram versos para o falecido e no evangelho, foi o morto, o centro das atenções. Tudo lembrava, bem de leve, bem de longe, mas bem de perto, aquele pelo qual a igreja estava cheia. Em dia de semana, não era sempre que as pessoas resolviam ir encontrar com Deus, mas estavam todos lá, para despedir-se do morto, lembrar-se do morto, saudar a viuvez da viúva do falecido morto.

Na falação do senhor sacerdote, um pouco de Deus e da vida dos santos, depois sobrou um espaço demorado para anunciação daquele que se foi. Foi bonito, emocionante. As palavras eram de saudade, que tocavam os corações feridos com a ida. Falava da certeza que era a sua chegada à casa de Deus. Outra vez o vento soprou, subiu a batina do padre, levantou o vestido da viúva. Ninguém notou nem sequer se espantou. A festa era para o enterrado. Outra vez o vento que apagou pela segunda vez, a vela do altar. Pela terceira vez, o vento soprou, derrubando a imagem de um santo que estava ao fundo do palco sacramental. Ninguém percebeu. A missa era pra recordar o falecido. O padre falava e os olhos lacrimejavam. O padre recordava e os fiéis, recordavam e sentiam a saudade de uma semana. Homilia feita, olhos cheio de água salgada, corações partidos parecendo voltar a seguir a ordem natural das coisas.

Deu-se a abertura aos fiéis e cada um de seu lugar, espontaneamente orava em voz alta, pelo falecido. Um recordou a boa fé que o enterrado tinha e todos repetiram, ouvi nos Senhor. Outro orou pelas ações benfeitoras que tinha feito em vida e todos repetiram ouvi nos Senhor. A mãe do morto lembrou-se do bom filho que de suas entranhas saiu, logo ouvi nos Senhor. Uma das filhas também quis falar, orar, lembrar do pai e soltou um para que o papai acorde logo e saia do buraco, ouve espanto e só repetiram o rogativo, pois assim fez o sacerdote. Por isso, por aquilo, por aquele tudo, por aquilo... Ouvi nos Senhor!

Levou-se ao altar o cálice e o vinho ofertado pelo falecido, dias antes de sua partida. Entregaram as rodelas comungantes, lembrando-se do corpo do morto e os cestinhos, encheram-se das moedas, assim como sempre fazia o enterrado. Todos foram ofertar suas quantias. Até os mais miseráveis nessa missa abriram a mãe e fizeram lá sua contribuição. Transbordaram na oferta, lágrimas quase solidificadas, com o passar do rito, cada um ia voltando a si, se recompondo, pronto para o próximo fúnebre.

No Santo, ouviu-se que ele era o santo. No outro Santo, que ele era realmente um santo. Na terceira badalada do Santo, soprou pela quarta vez um vento impiedoso que levantou o vestido da viúva e retirou o véu da mãe do morto. E do Senhor Deus do Universo, estremeceu as filhas, pareciam ver algo, mas calaram-nas. Shiu de cá, shiu de lá. Era a missa do pai morto. Nem santo, nem nada. O morto era apenas morto e o padre vendo a multidão aclamando um santo diferente do que era para ser, fez-se lembrar de que Deus era o Santo da oração e que o morto, era o falecido da viúva lá do fundo!

Consagraram o Cristo numa hóstia e ao morto, foi celebrada a ida a comunhão junto com Deus, num céu. Elevando o cálice com o vinho ofertado pelo morto, ficava difícil saber quem chorava pela missa e quem se lembrava do defunto enterrado. Era como a profecia, choro e ranger de dente. Ouve um impiedoso bater de ventos, o que fez rolar dessa vez o chapéu da mãe do morto, levantar a batina do padre, os santinhos que são propícios ao final dessas celebrações e ainda subiu o vestido da viúva. Ninguém se importou, a atenção era para o falecido, morto e enterrado!

E depois, quase depois de o vento soprar pela sexta vez, mais forte, mais viril, como se o tempo quisesse dizer alguma coisa ou se o morto soprasse alguma coisa ou que alguma coisa a soprasse por si mesma, seguiu-se todos em profissão, rumo ao altar, alimentar a alma, alimentar a fé, dar sabor e vida nova as próprias vidas. Um a um, dentre os sem pecados e que podiam fazer a refeição da missa, iam-se em direção ao sacerdote, tomar com as mãos, outros diretamente na boca, uma bolinha branca que guardava lá seus grandes mistérios. Seguiram as freiras e as moças, as virgens e as que já não eram mais, as pecadoras perdoadas, as crianças e o pai do morto e também a mãe do falecido. Foram-se todos e no meio de tanta gente, deram espaço à viúva, atrás dela, ousou infiltrar o bêbado. Era missa, não tinha distinção, filhos do mesmo pai, devotos da mesma mãe. Todos saudando o homem bom que se foi.

E veio para confirmar, marcar presença e dar sua sentença. Mais uma vez, agora pela sétima, um vento ímpeto, forte, corpulento. Como se batesse no rosto de cada comungante, de cada filho de Deus. Ouve corpos balançando, gente segurando a saia o chapéu, mas teve os que não tinham habilidades e deixaram as anáguas aparecerem, os chapéus voarem. Mas o mais alvoroço foi à queda do bêbado. Ele caiu, teve cara de espanto, de incredulidade. Ouve um riso sem vergonha, um tapar de olhos ali e um beliscão aqui. O padre pediu silencio, as freiras ajoelharam. Cessaram as lágrimas, esqueceram-se do morto e foi tudo bafafá. O bêbado caiu, mas se levantou, mas ele em sua vez, ante ao vento que o derrubou, esbarrou na viúva que em seu vestido preto e salto quinze, não suportou. O vento soprou, o bêbado caiu e esbarrou na viúva, ela por fim, tombou, revelando a todo mundo um corpo mutilado, marcado por sinais de cigarro, arranhões. Tudo ferimento do passado e em nota a toda população, ela se explicou: era o bom homem para todos os outros, mas com ela, era só tapas, socos e pontapés.

O tempo passou e todos se lembravam do morto, da cena vista na capela e do que falara a viúva. Passou-se e ela pode enfim se libertar, do atestado de viuvez, com o falecimento de um nobre cidadão, que morava na rua de trás. Ele também era um bom sujeito. Bom pai e ótimo marido. Bom filho e amado por todos. Também tinha um amigo bêbado e era temente a Deus. Esqueceu-se de uma viúva, para viuvarem por um longo período, outra mulher que não via tanta bondade no falecido morto!

Um comentário:

Célia Rangel disse...

Que situação mais catastrófica e mórbida, hein?! Amém...