4 de outubro de 2012

Manifesto



Entendam, não vim até aqui para aplaudir ninguém, mas espero as palmas que me caibam, afinal de contas, ainda estou vivo e ando em cima de duas pernas - não que duas pernas faça o 'dignismo' de coisa alguma, mas sou entre vós, todos, o melhor e o pior de todos os humanos. Ando, sento, cumprimento os passantes, sorrio amarelo e de vez em quando, sento-me no trono da graça e ali alimento o vaso com minhas merdas. Sou como todos vós, até mesmo na hora defecal do dia, ou seja, ninguém é tão diferente, salvo a cor da pele (o que não quer dizer muita coisa), o tipo de cabelo ou as merdas que escutamos dia e noite. Somos todos iguais, metricamente falando. Você é um tu para mim e eu sou um você para ti, o que muda é o pronome, mas não a excêntrica essência de que fomos feitos, cuspidos e escarrados a cara do Pai. Pai? O Senhor teu Babylon, sem a culpabilidade do pecado sacral, e mais uma vez, retomo a forma grotesca de barro e sirvo de passarela para as vossas mazelas, seres dotados de (pseudo) inteligência.

Unimo-nos todos, e façamos a revolução das massas, já que somos todos farinhas do mesmo saco, defendemo-nos portanto, o não fim de nossa espécie. Já que estamos tão acostumados com o que chamaremos a partir de agora de laço sanguíneo, incluiremos também em nosso vital círculo de famílias, os ditos amigos. Não temam os vossos inimigos, exterminaremos com todos ou eles acabarão com a gente, um a um.

Outra coisa que inclui esse simplório manifesto meus caros, está na santidade proposta nos primórdios dos tempos: vós todos encontram-se ferrados e seus destinos serão os infernos astrais que a hipócrita religião maior pregou, mas ainda dá tempo de mudar as crendices, por esse e outros motivos clérigos, digo-vos porém que armai-vos, antes que um ser dotado de nobreza se achegue e arranque primeiro os vossos olhos, pois nos foi dado para enxergar e só o que vimos foram a miséria dos outros e cagamos sobre vossas cabeças; em seguida retirará nossos ouvidos, por termos escutados as babaquices entojadas e evangélicas de vossos antigos profetas, atualizados numa batina fedorenta e amarelada. Depois de totalmente desmembrado, restará-nos uma cruz, bendito será o madeiro ao qual nosso corpo será deitado e enfim, seremos alimentos dos vermes que estão entalados por dentro de nós mesmos, afinal de contas, estamos nos matando e culpamos os outros. A todo instante estupramos a nossa incapacidade de sermos meros humanos e damos por satisfeito, nossa sutil situação de horrendos monstros singulares.

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